
O Percurso Histórico da Casa das Rosas
Início e término de um museu virtual e de um espaço cultural na cidade de São Paulo.
por Paulo Vergolino
Como um dos poucos imóveis residenciais ainda presentes na Av. Paulista, a Casa das Rosas foi projetada pelo escritório de Ramos de Azevedo e serviu de moradia a seus descendentes diretos durante 51 anos. O patriarca e antigo dono do terreno foi responsável pelo mais afamado escritório de arquitetura e engenharia da cidade – a firma F. P. Ramos de Azevedo –, construtora de inúmeros edifícios residenciais e comerciais nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, tanto do interior quanto do litoral, na virada do século XIX.
O imóvel foi inicialmente habitado pelo casal Lúcia Ramos de Azevedo e Ernesto Dias de Castro e posteriormente pertenceu ao filho do casal, Ernesto Dias de Castro Filho. Sua segunda esposa foi a última descendente de uma família de bem nascidos que, por duas gerações, usufruíram o melhor que a cidade e o conforto de um casarão como aquele poderia oferecer na época, com quase trinta cômodos, quatro andares e repleto de materiais de construção importados.
Porém, os anos passaram, a firma de Ernesto Dias de Castro – importadora de materiais de construção que havia passado para a geração de Ernesto Filho – fechou e a família ficou gradativamente exposta a uma situação financeira cada vez mais difícil. Os impostos tornaram-se cada vez mais altos, o que os obrigou a vender o imóvel e o terreno, localizado em uma das regiões mais valorizadas do país. A Construtora Júlio Neves comprou-os com a intenção de construir dois grandes prédios comerciais em um terreno de 5.500 m². Neste ínterim, por volta de 1985, o CONDEPHAAT tombou o casarão, e a sua desapropriação foi concluída no ano seguinte. Por sua vez, a Construtora Júlio Neves elaborou uma proposta apresentada à Secretaria de Estado da Cultura de que a Construtora se responsabilizaria totalmente pelo restauro do imóvel caso aquele Órgão permitisse a construção de um de seus prédios comerciais nos fundos do imóvel. O acordo foi fechado e a casa, quase por milagre, foi salva da demolição.
Em 11 de março de 1991, surgiu então, a Casa das Rosas, destinada a apresentar mostras temporárias de obras do acervo artístico do Estado, com uma área de atuação ampliada e voltada prioritariamente à divulgação dos acervos e das iniciativas da rede estadual de Museus e do Departamento de Museus e Arquivos (DEMA). Após um período em que esteve fechado, o espaço foi reaberto em 1995 sob a direção do artista plástico José Roberto Aguilar, com a proposta de ser um espaço cultural dedicado a exposições interdisciplinares.
Aguilar, como um legítimo representante da geração vanguardista da década de 60 e antenado com praticamente todas as propostas e perfis contemporâneos, iniciou sua gestão visando apresentar ao público todas as últimas tendências nacionais e internacionais da arte contemporânea, em mostras das mais variadas.
´Banheiro Rosa´, em estilo Art Dèco, com louças inglesas.Ao longo de nove anos, o local apresentou mostras antológicas, dentre as quais podemos citar:
O mundo de Mário Schenberg; Luz ; Desex-plós-ignição; Rosas Rosa etc., que levaram milhares de visitantes a entrar em contato com o melhor da arte multimídia e que abriram espaço para a exposição de trabalhos de mais de 600 artistas plásticos.
Ainda no decorrer deste período, a Diretoria também promoveu uma série de debates, palestras e discussões sobre os mais variados temas pertinentes à área cultural, e vinha realizando o Projeto “Segundas Rosas Feiras”, com o intuito de apresentar mais de 200 grupos pertencentes às áreas da dança, da música, do teatro, do vídeo e de performances. O Projeto contava com o patrocínio da empresa de máquinas para o setor metalúrgico IRAM e foi premiado pela APCA em 2001.
Também a partir de 1995 se deu o ingresso das primeiras mostras no website da Casa (http://www.dialdata.com.br/casadasrosas - n.e.: link desativado) , com o objetivo de promover, em ambiente virtual, a função da preservação, tão peculiar a instituições museais.
O site era dividido basicamente em quatro acessos principais: homepage, ou seja, a página principal, que continha a localização da Casa no mapa da cidade e as possibilidades de acesso via metrô, além da indicação das exposições realizadas no local, links para cada uma e o fornecimento de informações pontuais sobre o Museu através de itens como: performances; a Casa das Rosas; WebCanal; exposições; apoios/ patrocínios; endereço, telefone e e-mail para contato.
de Castro Filho (coleção particular).
De acordo com o andamento das mostras e com a introdução imediata destas no site, o Museu Virtual Casa das Rosas passou a contar, em conjunto com o Espaço Cultural, com mais de 1.400 páginas que disponibilizavam, durante as 24 horas do dia, as mais diversas informações sobre aquele Espaço, qualificando-o como um dos melhores e mais completos museus virtuais do Brasil.
É relevante citar que a Casa das Rosas nunca foi possuidora de acervo material, o que a qualifica como Espaço Cultural: todas as suas mostras foram realizadas com peças que vieram de fora da instituição ou foram confeccionadas especialmente para cada evento, sendo devolvidas ou desmontadas ao final de cada exposição. Conclui-se, portanto, que as informações contidas no website tornaram-se as únicas capazes de informar o público acerca da instituição como um todo.
Contudo, no início de março deste ano, a Secretaria de Estado da Cultura comunicou à Casa das Rosas a necessidade de cancelamento de toda a programação do Espaço a partir de abril de 2003, agonia esta que se estendeu até o final daquele mês, quando o Espaço fechou definitivamente as portas, decretando também o fim de seu museu virtual.
Seguiram-se diversas manifestações em prol da permanência do Espaço dedicado à arte contemporânea desde sua criação. Em 31 de março, último dia do Projeto “Segundas Rosas Feiras”, manifestantes pararam a Avenida Paulista carregando faixas de protesto nas quais se lia: “Assalto à Cultura”. Na semana seguinte, outra manifestação reuniu cidadãos e artistas que, juntos, pintaram uma tela de 80 metros em frente à Casa das Rosas. Cobriram também o “luminoso” da Casa com um plástico preto em sinal de descontentamento perante a decisão tomada pela Secretaria da Cultura.
Tal movimento também conta com um site – http://www.rosassim.hpg.com.br - que permite aos interessados acompanharem de perto as negociações, encabeçadas por diversos artistas plásticos que tentam reverter a situação junto ao Governo do Estado.
Segundo a Secretaria de Estado da Cultura, a Imprensa Oficial deverá ser transferida para aquele local, que funcionará em conjunto com um espaço a ser dedicado à leitura, e que deverá colocar também à disposição uma biblioteca virtual, oficinas para discussão de leituras, workshops e palestras. O local deverá abrigar um showroom da Gráfica, responsável pela edição do próprio Diário Oficial, além de publicações de áreas diversas, como as da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo informações, o acervo digital da Casa das Rosas ficará sob a guarda do Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo.



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